Diário

Como desenhamos o cardápio do El Bigüá, o restaurante do Hotel Tehuelche

Por trás do cardápio impresso de um restaurante existem decisões que afetam quanto se pede, o que se pede e como os clientes lembram da sua marca. Contamos como criamos o cardápio de outono 2026 do El Bigüá.

4 min de leiturapor Jorge Fernándezdiseñobrandinggastronomíapatagoniaesquel

Um cardápio não é uma lista de pratos com preços. É uma peça de marca que o cliente segura nas mãos durante vários minutos, em silêncio, enquanto decide quanto vai gastar.

Quando o Hotel Tehuelche nos pediu para redesenhar o cardápio do seu restaurante, o El Bigüá, partimos dessa ideia: o cardápio é um dos poucos objetos da marca que o cliente toca. Precisava estar à altura.

O contexto

O El Bigüá é o restaurante do Hotel Tehuelche, em Esquel. Cozinha patagônica, localização com vista para o cerro La Hoya, clientela mista entre hóspedes do hotel e clientes locais. O cardápio anterior era funcional, mas anônimo: tipografias genéricas, sem identidade própria, idêntico ao de qualquer hotel de rede.

O pedido foi claro: um cardápio que se pareça com o que o restaurante quer transmitir.

As três decisões de design

1. A ilustração como âncora de marca

O biguá é uma ave aquática típica da Patagônia. Em vez de usá-la de forma decorativa, transformamos ela no único elemento gráfico da capa. Traço contínuo, sem sombras, sem preenchimento. Uma ilustração que se reconhece em dois segundos e pode ser usada depois nas redes sociais, na papelaria do hotel ou como selo em outros materiais.

A regra: se uma peça de marca só funciona em um suporte, ela está mal desenhada. A marca precisa viajar.

2. A tipografia editorial

Escolhemos uma serifada moderna para o nome do restaurante e uma sem serifa neutra para os pratos. Essa combinação não é só estética: é hierarquia. A serifada transmite que este é um lugar pensado, não improvisado. A sem serifa faz com que os pratos sejam lidos rápido, sem esforço, na luz baixa típica de um restaurante à noite.

Um cardápio em que o cliente precisa apertar os olhos para ler perde vendas. Não por causa da oferta ruim, mas por má leitura.

3. O fundo azul profundo

O azul quase preto não é uma decisão cromática. É uma decisão de contexto. O restaurante tem luz quente e baixa. Um fundo branco fica agressivo. Um fundo creme suja rápido. Um azul profundo com detalhes em cor cobre absorve a luz, faz o dourado da ilustração brilhar e se mantém impecável depois de vários serviços.

O cardápio precisava sobreviver ao uso real, não só ficar bonito na foto de aprovação.

O que não se vê na capa

A capa é 10% do trabalho. Os outros 90% são a grade interna: como as seções são distribuídas (entradas, principais, sobremesas), quanto espaço cada prato recebe, onde ficam os preços.

Algumas regras que aplicamos:

Os preços não ficam alinhados em coluna. Quando os preços formam uma coluna vertical, o cliente percorre a coluna e escolhe o mais barato. Se você os coloca em linha depois da descrição, o cliente lê o prato primeiro e o preço fica em segundo plano. A diferença no ticket médio é mensurável.

O prato principal vai no quadrante superior direito. É onde o olhar cai primeiro quando o cardápio é aberto. Esse lugar não pode ser desperdiçado com uma entrada genérica: vai o prato que você mais quer vender.

No máximo sete opções por seção. Mais do que isso satura. O cliente trava, não decide, e acaba pedindo o que já conhece. Menos opções, melhor descrição de cada uma.

O processo

Trabalhamos com a equipe do hotel em três rodadas:

  1. Briefing e referências. Percorremos juntos cardápios de restaurantes de Buenos Aires, Bariloche e do exterior. Não para copiar, mas para descartar. Definir o que não queremos costuma ser mais rápido do que definir o que queremos.

  2. Rascunhos em preto e branco. Primeira rodada sem cor. Se a composição funciona em preto e branco, a cor só melhora. Se não funciona, a cor esconde o problema.

  3. Cardápio final com prova de impressão. Antes da impressão definitiva, imprimimos em papel real, no restaurante, sob a luz real. Detectamos duas coisas que na tela não apareciam: um contraste insuficiente em uma seção e um espaçamento estranho na região central. Foram ajustados em uma manhã.

O resultado

O cardápio de outono 2026 entrou em uso esta semana. É o primeiro de uma série sazonal, que muda a cada quatro meses, mantendo a identidade mas alternando pratos conforme o produto regional.

Cardápio do El Bigüá apoiado em um suporte de madeira sob a luz do restaurante
Cardápio do El Bigüá apoiado em um suporte de madeira sob a luz do restaurante

Ver o cardápio completo ao vivo →

Se você tem um restaurante, um bar ou qualquer negócio em que o cardápio é um ponto de contato com o cliente, vale a pena tratá-lo como o que ele é: um canal de venda. Não uma tarefa a mais do designer gráfico.


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